Outono chegou, fim de março na porta, o verão ficou para trás e, de repente, bate aquela sensação incômoda de que os primeiros meses do ano foram em vão. Você olha para o calendário e pensa: “O que, afinal, eu produzi desde janeiro?” Se esse cenário parece familiar, saiba que existe uma explicação — e ela vai além da preguiça ou da falta de organização.
Essa experiência de esvaziamento das próprias realizações tem nome e fundamento psicológico. A “Síndrome da impostora” é uma desordem psicológica que, apesar de não ser classificada como doença mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é bastante estudada e afeta principalmente mulheres. O fenômeno, combinado às mudanças sazonais que o outono traz ao Brasil, cria um terreno fértil para a autossabotagem e a desvalorização das suas conquistas reais.
O que acontece com a nossa mente em março?
Janeiro começa com energia renovada. Listas de metas, promessas de mudança, expectativas elevadas. Fevereiro mantém o ritmo — entre Carnaval e a adaptação à rotina. Quando março desponta, acontece uma virada silenciosa: o corpo está cansado, o entusiasmo inicial já se dissipou, e a cobrança interna aumenta.
A transição do verão para o outono não afeta apenas o guarda-roupa. Pesquisadores apontam que o transtorno afetivo sazonal é um tipo de depressão recorrente que ocorre principalmente nos meses de outono e inverno, quando há menor incidência de luz solar natural. A redução da luminosidade influencia o ritmo circadiano e a produção de neurotransmissores, como a serotonina e a melatonina.
Durante o outono e o inverno, a incidência de luz solar é menor. Consequentemente, reduzimos a produção de algumas substâncias, como a serotonina e a melatonina — que estão ligadas ao humor. Essa desarmonia pode deixar a pessoa mais deprimida, ansiosa e cansada. Dados do Departamento de Psicologia médica da King’s College London mostram que dias nublados, chuvosos e frios levam a alterações emocionais, no sono e no humor. A incidência é mais comum em países como Finlândia, Noruega e Suécia, mas na região Sul do Brasil, nos meses de outono e inverno, não é raro que os moradores apresentem alguns sintomas.
O perfeccionismo que apaga realizações
Especialistas em saúde mental afirmam que, uma característica marcante da síndrome da impostora é o padrão perfeccionista. Para os perfeccionistas, o trabalho deve ser 100% perfeito o tempo todo. Não há espaços para erros, as expectativas para os resultados acabam sendo tão altas que se tornam irreais e nenhuma conquista é digna o suficiente de ser celebrada.
Em janeiro, você estabeleceu vinte metas. Em março, cumpriu doze. Para uma mente saudável, doze de vinte representam 60% de sucesso. Para quem vive a síndrome da impostora, o foco recai exclusivamente nas oito metas pendentes — e o progresso real simplesmente desaparece do radar.

Superar a Síndrome do Impostor é um processo contínuo de autoconsciência e mudança de mentalidade. Imagem: Jornal Mix
Por que esse fenômeno atinge mais as mulheres?
Os estudos sobre a síndrome da impostora começaram em 1978, quando duas psicólogas norte-americanas, Pauline Clance e Suzanne Imes, da Universidade Estadual da Geórgia, iniciaram uma pesquisa com 150 mulheres em posição de destaque profissional. O levantamento revelou que, quanto mais respeitadas e bem-sucedidas, mais essas mulheres sentiam-se inseguras e acreditavam ser uma fraude.
A armadilha da comparação e da desvalorização
Existe um padrão comum entre quem experimenta esse fenômeno: conquistas próprias são atribuídas à sorte, ao momento certo ou a fatores externos. Já os erros? Esses são internalizados como prova de incompetência.
A condição é um conflito entre o desejo de ser reconhecida e o medo de não estar à altura. É quando a pessoa sente que não merece o que conquistou, como se tivesse enganado os outros sobre sua capacidade.
O outono como período de revisão — e julgamento
Naturalmente, março convida à avaliação. Os primeiros 90 dias do ano se completam, e surge a tentação de fazer balanços. Para quem carrega a tendência à autossabotagem, essa revisão pode se transformar em tribunal interno.
O ciclo funciona assim: você trabalha intensamente, não se sente devidamente reconhecida, conclui que é uma fraude, trabalha ainda mais para compensar, fica exausta — e, ao final, sente que “nada foi feito”. A produtividade real desaparece sob camadas de autocrítica.
De acordo com a pesquisa “Acelerando o futuro das mulheres nos negócios”, produzida pela KPMG, para 77% das executivas entrevistadas, a diferença entre o que elas esperavam da vida pessoal ou da carreira e a realidade que elas realmente conquistaram pode ter desencadeado a síndrome da impostora. O levantamento indicou ainda que 56% das entrevistadas que atuam em cargos de liderança temem que as pessoas ao redor não acreditem que elas são capazes quanto o esperado.
Caminhos para sair da armadilha mental
Se a síndrome da impostora funciona como um padrão psicológico de autodefesa e perfeccionismo, o primeiro passo para enfrentá-la está no reconhecimento: essa voz crítica interna não representa a realidade da sua competência.
Práticas que podem ajudar:
- Liste suas realizações concretas: anote, literalmente, tudo o que você fez entre janeiro e março. O exercício de colocar no papel revela uma produtividade que a mente tende a ignorar;
- Valide o esforço, não apenas o resultado: o caminho percorrido tem valor próprio, independentemente de metas 100% cumpridas;
- Acolha o ritmo do outono: desacelerar não significa falhar. A produtividade humana não é linear — e respeitar os ciclos naturais do corpo protege a saúde emocional;
- Busque escuta qualificada: conversar com profissionais de saúde mental ou mesmo com pares que compartilham experiências similares ajuda a dimensionar corretamente suas conquistas.
O que fica
A sensação de que março chegou sem que você tenha feito “nada de relevante” não é preguiça, falta de foco ou incompetência. É um padrão mental alimentado por perfeccionismo, estereótipos de gênero e, muitas vezes, pelas próprias mudanças sazonais que alteram a química cerebral e disposição.
Reconhecer esse mecanismo já é um ato de autocuidado. Questionar a voz interna que desvaloriza suas realizações é um exercício de saúde emocional. E entender que muitas outras mulheres — inclusive as mais bem-sucedidas — passam exatamente pela mesma experiência pode trazer algum alívio.
Suas conquistas dos primeiros meses do ano existem. Talvez só precisem de um olhar mais generoso para serem enxergadas. Que tal começar agora?