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Trend “caso ela diga não” viraliza e revela onda de misoginia nas redes sociais

PF abre inquérito, governo aciona TikTok e debate sobre criminalização da misoginia ganha força no Brasil

por Yasmin Souza
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Mulher com a mão levantada em gesto de defesa simbolizando o combate à violência contra mulheres.

Um vídeo começa com um homem ajoelhado, flores na mão, numa proposta romântica. Mas o que vem depois não é gentileza: socos, facadas simuladas, chutes. A legenda? “Treinando caso ela diga não.” Essa é a trend que viralizou no TikTok durante o mês do Dia Internacional da Mulher — e que agora está nas mãos da Polícia Federal.

A PF (Polícia Federal) abriu um inquérito para investigar a trend “Caso ela diga não”, que incita práticas de violência contra a mulher. O timing não é coincidência: os vídeos ganharam força justamente em março, mês dedicado à conscientização sobre direitos femininos.

O caso expõe algo que vai muito além de uma “brincadeira online”. Revela uma camada de misoginia normalizada nas redes sociais, amplificada por algoritmos e monetizada por plataformas.

O que é a trend “caso ela diga não” e como ela surgiu

Publicações com a frase “treinando caso ela diga não”, ou variações, começam com gestos românticos, como o homem se ajoelhando para pedir a mulher em casamento. Após a encenação de uma rejeição, o autor do vídeo simula chutes, socos e até agressões com armas brancas.

Segundo análise do G1, ao menos 20 vídeos com esse formato circularam entre 2023 e 2025, publicados por perfis com até 177 mil seguidores e somando mais de 175 mil interações. Os números mostram que esse conteúdo não era novo — apenas ganhou escala e atenção pública agora.

Por que virou alvo das autoridades em 2026?

A resposta está no contexto. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da última década: 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024. Isso equivale a quatro mulheres mortas por dia.

Dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), mostram que houve 6,9 mil vítimas de casos consumados e tentativas de feminicídio em 2025, um aumento de 34% em relação ao ano anterior.

Nesse cenário, vídeos que simulam agressões após uma rejeição deixaram de ser ignorados.

Montagem mostra exemplos de vídeos da trend “treinando caso ela diga não”, em que criadores simulam reações violentas após rejeição a pedidos de namoro ou casamento.

Registros de vídeos da trend “Caso ela diga não”, investigada após incentivar comportamentos agressivos contra mulheres em plataformas digitais. Foto: Reprodução/TikTok.

A resposta do governo e da Polícia Federal

Inquérito aberto e perfis derrubados

A diretoria de Crimes Cibernéticos da PF, que conduz a investigação, já solicitou que alguns perfis que divulgaram esses conteúdos fossem derrubados e o material retirado do ar.

A AGU sustenta que os vídeos podem estimular crimes previstos no Código Penal, como feminicídio, lesão corporal, ameaça e perseguição, além de violência psicológica contra a mulher.

O pedido da Advocacia-Geral da União foi protocolado no domingo, 8 de março — exatamente no Dia Internacional da Mulher.

Cinco dias para o TikTok se explicar

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) enviou um ofício ao TikTok requisitando informações sobre as medidas adotadas pela rede social diante da circulação de conteúdos misóginos. A pasta estabeleceu cinco dias para a resposta da plataforma.

Entre os esclarecimentos solicitados, o governo pede que a plataforma apresente uma descrição detalhada das medidas técnicas e organizacionais adotadas para detectar e remover de forma proativa conteúdos de caráter misógino. A empresa também deverá informar se utiliza sistemas automatizados de moderação capazes de identificar tendências emergentes com potencial conteúdo ilícito.

O ministério questiona ainda se os mecanismos de recomendação da rede, como o feed algorítmico e ferramentas de impulsionamento, já foram submetidos a auditorias para avaliar o risco de amplificação de conteúdos misóginos. O governo também quer saber se houve algum tipo de monetização relacionada aos vídeos posteriormente removidos.

“Caso ela diga não” e a machosfera: o problema maior nas redes

A trend não surgiu do nada. Ela tem raízes em um ecossistema digital bem estabelecido.

A palavra misoginia significa ódio contra mulheres. Conteúdos misóginos vêm ganhando força em grupos da chamada machosfera, termo que abrange comunidades online que miram o público masculino e promovem discurso de ódio contra as mulheres e comportamentos agressivos.

Levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da UFRJ, mostrou que 90% de 137 canais do YouTube identificados em 2024 por promover misoginia continuam ativos. Além disso, o número de inscritos nesses canais cresceu 18,5% no período, passando de cerca de 19,5 milhões para mais de 23 milhões.

O papel dos algoritmos na amplificação

Os pesquisadores apontam que parte desses criadores de conteúdo monetiza vídeos e transmissões ao vivo com discursos que defendem o controle sobre mulheres e atacam o feminismo. Para especialistas, a combinação entre viralização nas redes e monetização desse tipo de conteúdo pode ampliar o alcance de discursos que naturalizam a violência de gênero.

Ou seja: o problema não é apenas quem posta. É também o sistema que recommenda, amplifica e remunera esse conteúdo.

O que o TikTok respondeu

Em nota divulgada à CNN Brasil, o TikTok afirmou que os conteúdos que violam suas Diretrizes da Comunidade foram removidos assim que identificados. A plataforma declarou que seu “time de moderação segue atento e trabalhando para identificar possíveis conteúdos violativos sobre o tema”. A empresa afirma não permitir discurso de ódio, comportamento violento ou promoção de ideologias de ódio.

No entanto, apesar da remoção de perfis e publicações da trend, alguns materiais ainda estão ativos nas redes. A moderação reativa — que age depois da viralização — é justamente o ponto central das cobranças do governo.

“Caso ela diga não”: o debate sobre criminalização da misoginia

A trend acelerou uma discussão que já existia no Congresso.

Diante do crescimento desses conteúdos, setores da sociedade defendem que a misoginia passe a ser tipificada como crime. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, em outubro do ano passado, um projeto que prevê pena de 2 a 5 anos de prisão.

A deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) afirmou que acionou o Ministério Público para investigar os perfis responsáveis pelas publicações. “Como as redes não são regulamentadas no Brasil, eles chamam isso de liberdade. Ou vão chamar de brincadeira”, afirmou a parlamentar.

Em paralelo, está prevista na pauta da Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados a votação de um requerimento para a PGR (Procuradoria-Geral da República) investigar a publicação viral. A proposta é do deputado federal Pedro Campos (PSB).

O limite entre humor e incitação à violência

Parte dos criadores de conteúdo alegou “ironia” ou “entretenimento” ao publicar os vídeos. Mas especialistas e parlamentares discordam dessa leitura.

A deputada Duda Salabert foi direta: “Não é ‘brincadeira’, não é ‘meme’, não é ‘trend’. É incitação à violência contra mulheres. Isso normaliza a violência e alimenta a cultura do estupro.”

Como denunciar conteúdos violentos nas redes sociais

Qualquer pessoa pode — e deve — denunciar conteúdos que incitam violência. Confira como fazer isso nas principais plataformas:

TikTok

  1. Acesse a postagem e toque em Compartilhar
  2. Toque em Denunciar e escolha o motivo
  3. Toque em Enviar

Instagram e Facebook

  1. Acesse a postagem
  2. Toque nos três pontinhos no canto superior direito
  3. Selecione “Denunciar” e detalhe o problema

X (Twitter)

  1. Acesse o post
  2. Toque nos três pontinhos
  3. Escolha “Denunciar post” e selecione o motivo

YouTube

  1. Acesse o vídeo
  2. Toque nos três pontinhos abaixo do vídeo
  3. Selecione “Denunciar” e indique o tipo de conteúdo

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