Mais de duas décadas após o crime que chocou o Brasil, Suzane von Richthofen, agora com 42 anos, quebra o silêncio em um novo documentário da Netflix. Na produção, que teve uma pré-estreia restrita, ela oferece sua própria versão dos eventos que levaram ao assassinato de seus pais, Manfred e Marísia von Richthofen, em outubro de 2002.
Atualmente em regime aberto, Suzane reconstrói sua história desde a infância, detalha a dinâmica familiar conturbada e reflete sobre sua nova vida como esposa e mãe, afirmando ter encontrado a redenção.
Maternidade, casamento e redenção
Longe da prisão desde 2023, Suzane iniciou um novo capítulo em sua vida. Ela conheceu o médico Felipe Zecchini Muniz e, em pouco tempo, oficializaram a união. Ao se casar, ela adotou um novo nome, passando a se chamar Suzane Louise Magnani Muniz. O casal reside em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, na casa do médico, junto com as três filhas que ele tem de um casamento anterior. O documentário expõe cenas da vida doméstica do casal, incluindo preparativos para o Natal com as enteadas.
Em 2024, Suzane deu à luz seu primeiro filho. A maternidade é apresentada por ela como um ponto de virada definitivo e uma prova de seu perdão divino. “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”, declara na produção.
O relacionamento com o marido também é explorado. Felipe relata no filme que o primeiro contato aconteceu através do Instagram, quando ele a procurou para encomendar sandálias customizadas que ela produzia. Esse contato inicial evoluiu para o relacionamento que culminou em casamento e na formação de uma nova família.

Suzane von Richthofen afirma ter sido “perdoada por Deus” em produção documental recente da Netflix.
Imagem: Reprodução/ O Globo
A versão de Suzane sobre a relação familiar
Um dos pontos centrais do depoimento de Suzane é a desconstrução da imagem de “família Doriana”. Ela descreve o ambiente doméstico de sua infância como um lugar marcado pela ausência de afeto, silêncio emocional e uma cobrança incessante por desempenho acadêmico.
“Eu vivia estudando. Era só nota alta. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles”, afirma.
Segundo seu relato, o pai, Manfred, era “zero afeto”, enquanto a mãe, Marísia, demonstrava carinho de forma esporádica. A relação entre os pais é classificada por ela como “muito ruim”, e Suzane chega a narrar um episódio de violência doméstica que teria presenciado na infância: “Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede. Foi horrível”. Esse distanciamento, segundo ela, fez com que ela e seu irmão, Andreas, se tornassem “invisíveis” e criassem um “refúgio” particular dentro de casa.
O estopim do conflito
Nesse cenário de vazio emocional, Suzane alega que o namoro com Daniel Cravinhos preencheu um espaço fundamental em sua vida. “Esse espaço vazio foi ocupado pelo Daniel”, diz ela. A relação com Daniel, no entanto, aprofundou o abismo com os pais. A resistência familiar ao namoro cresceu, especialmente por parte da mãe, que acreditava que Daniel a “puxaria para o fundo do poço”.
Para manter o relacionamento, Suzane passou a levar uma vida dupla, mentindo sobre suas atividades. O conflito escalou até chegar à agressão física. “Ele me deu um tapão na cara tão forte que meu rosto virou pro lado”, revela sobre uma briga com o pai. O ponto de virada, em sua narrativa, foi um período de 30 dias em que seus pais viajaram para a Europa e Daniel se mudou para a casa da família. Ela descreve esse mês como “um sonho que eu não queria que acabasse”, marcado por “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”.
Construção do crime e a noite de 31 de outubro de 2002
No documentário, Suzane von Richthofen aborda como a ideia do crime foi concebida. Ela afirma que o plano não surgiu de forma direta. “Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”, descreve. Embora tente se distanciar do planejamento detalhado, ela assume a responsabilidade central pela execução. “Eu aceitei. Eu os levei pra dentro da minha casa”, pontua, para então concluir de forma direta: “A culpa é minha. Claro que é minha”.
Sobre a noite do assassinato, Suzane sustenta que não participou da execução. Ela relata ter permanecido no andar de baixo da casa, tentando se isolar do que acontecia no quarto dos pais. “Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”, conta, admitindo que tinha plena consciência do que estava em curso. Ela descreve seu estado mental como “dissociado”, comparando-se a “um robô, sem sentimento”.
Apesar disso, ela reconhece que poderia ter interrompido a ação dos irmãos Cravinhos. “Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria”, reflete. “Quando tudo terminou, o impacto veio de forma imediata. Não tinha mais como voltar atrás”.
Contradições e a percepção pública
A narrativa de Suzane não é apresentada sem contrapontos. Um dos momentos mais diretos do documentário ocorre quando a delegada Cíntia Tucunduva, que investigou o caso, é mencionada. A delegada afirma que, no período entre o crime e a confissão, encontrou Suzane dando uma festa na piscina da casa, de biquíni, com cerveja e cigarro, enquanto apresentava o local do crime como um “museu” para os amigos.
Confrontada com essa versão, Suzane nega. “Não tinha a menor condição de fazer uma festa naquela casa. A casa estava com cheiro de sangue”, argumenta ela. Este momento evidencia o choque entre a sua versão dos fatos e a percepção das autoridades na época. O documentário, com o título provisório de “Suzane vai falar”, busca apresentar a sua verdade, mas deixa ao espectador a tarefa de ponderar sobre as diferentes facetas da história.
Ao final, Suzane tenta traçar uma linha definitiva entre seu passado e presente. “Aquela Suzane ficou lá no passado. A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, finaliza, reforçando a ideia de que a mulher que hoje é mãe e esposa não é mais a mesma pessoa que cometeu o crime há mais de 20 anos.
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